segunda-feira, 22 de julho de 2013
A Crise da Representatividade no Brasil e no Mundo
O status quo da política no Brasil só vai mudar se a pressão das ruas continuar, ainda que não continue com a mesma frequência, porque esses movimentos são sempre sazonais. Mas essas evidências internas de tendência à acomodação depois da pressão inicial podem nos levar a não considerar o fato de que essas movimentações que aconteceram no Brasil são coisas que têm relação com uma crise que é mundial. Esta é um crise mundial de representatividade. A representação exercida por profissionais é que está em crise aqui, na Espanha, no Egito. É essa crise que vem se alinhavando. E as respostas que vem sendo dadas internamente são respostas dadas pelos políticos profissionais.
Na verdade, os políticos não estão dando uma resposta, eles estão é se preparando para dar o troco, porque as reivindicações do povo não vão se sedimentar enquanto não houver um questionamento efetivo da ordem no Brasil, da ordem burocrático-profissional da política brasileira, que é semelhante à realidade de outros países. A situação não vai se resolver com pequenas reformas. Aliás, é curioso, porque em países que possuem o voto majoritário distrital, eles veem os impasses e ficam pensando que seria melhor o voto proporcional com lista aberta, como tem no Brasil. E, no Brasil, como temos os mesmos impasses, eles ficam pensando que seria melhor o voto distrital, como tem em outros países.
Isso é sinal de que o problema não está aí, e, portanto, o problema não está na ordem que os políticos profissionais podem nos dar, na resposta que eles podem nos dar. Não. A resposta está num plano muito diferente, que é o de questionar o fato da representação, não a gestão ou o judiciário, mas a representação, o fato da representação ser exercida por políticos profissionais que têm a possibilidade de se reeleger infinitamente. A quebra desse paradigma, desse fenômeno infeliz gerado pela representatividade, que é o carreirismo político, é que teria que ser o alvo principal dessa possível reforma política. E esse tipo de questão está nas mãos de quem não tem o menor interesse em que isso seja efetivado.
Vejamos o caso de Renan Calheiros. Renan diz que é representante e que o avião pode ser usado para o exercício da representação. Mas em um casamento de um correligionário? Eles estão absolutamente misturando a dimensão da representação, que eles incorporaram como uma profissão em qualquer atividade que eles tenham que desenvolver e nas quais eles empreguem o tempo deles. É evidente que essas quantias como a que foi gasta por Renan são irrisórias. O gasto do Renan foi o que apareceu, mas o que tem de viagem dá uma soma grande. Essa soma pode dar, provavelmente, alguns milhões. Esses alguns milhões não tapam sequer um buraco de cárie. Então por que isso tem importância? Não é pela razão econômica, é pela razão simbólica.
Uma postura como a do senador Renan Calheiros mostra o divórcio que há entre os políticos profissionais e o tipo de representante que o povo gostaria que estivesse lá. A representação é um fluxo da sociedade no sentido em que a sociedade se manifesta e precisa se reconhecer em seus representantes. Não é como no Executivo, onde o representante não é necessariamente um representante, mas um gestor. Ele não precisa ouvir a sociedade o tempo inteiro, mas o legislativo, sim. A sociedade é fluxo, mudança, e políticos como Renan transformaram isso numa rotina, numa estrutura própria totalmente separada. O bom desses privilégios é que a imprensa pode iluminar essa distância, essa ausência de fluxo.
A imprensa realmente explicita a existência de rotinas absolutamente cristalizadas que mostram como os políticos profissionais estão de costas para nós. Quando a repórter pergunta ao Renan Calheiros se é ético usar dinheiro público em viagens particulares, ele dá uma resposta absurda para ver se cola e, quando percebe que não cola, se vê obrigado a voltar atrás. Um político voltar atrás significa que nós, o povo, estamos ganhando terreno? Duvido muito. Os políticos é que estão tentando ganhar tempo, porque na hora em que houver um recuo nos protestos, políticos profissionais como o senador Renan Calheiros voltarão a desfrutar dos mesmos privilégios espúrios que desfrutam exatamente neste momento.
O primeiro impacto das manifestações não foi eleitoral, e sim de imagem pública (vide a popularidade da Dilma, que despencou vertiginosamente após os protestos), mas isso não conta para a eleição, onde o que vale é uma imagem que também é rotinizada. Se não houver desdobramentos das manifestações até 2014, poderemos ter uma regressão nos avanços. Discute-se muito sobre o plebiscito, mas deveria haver plebiscito E referendo. As duas coisas, pois há demandas que só o plebiscito poderá resolver, e o referendo servirá para a aprovação ou não do que foi decidido no plebiscito. O fato dos políticos profissionais se mostrarem interessados nessa discussão parece ser mais uma artimanha para empurrar as coisas com a barriga e fazer as pressões por mudança esfriarem.
A Resposta dos Políticos às Manifestações
O risco que corremos agora é o de que a resposta dos políticos às manifestações não seja uma resposta, seja um troco. Isso mesmo, Os políticos podem querer dar o troco. E dar o troco significa o seguinte: tomar medidas e adotar alternativas de mudança que vão se transformar numa reforma CONTRA a mudança, uma reforma que vai dificultar ações como essas que ocorreram, que vai dificultar a representação. Agora, sobre plebiscito e referendo, o ideal é que tivesse as duas coisas. O plebiscito é para perguntar antes o que o Congresso DEVE fazer e o referendo vem depois para perguntar se o Congresso FEZ aquilo que o plebiscito diz que o Congresso DEVERIA fazer. Por quê? Porque um plebiscito não deve se debruçar sobre detalhes.
A pergunta de um plebiscito, neste caso as perguntas, deve ser muito técnica. As perguntas devem ser muito técnicas. Então, os eleitores fazem uma escolha num plebiscito. O Congresso, como representante (vamos dar um voto de confiança nele), vai se sentar e, bem desconfiado, vai fazer um corte. Muito desconfiados, eles fazem uma mudança lá à luz do que o plebiscito decidiu e aí eles voltam com o referendo para que o eleitor diga se a mudança que eles fizeram tinha a ver com o que o plebiscito decidiu antes. Esse jogo de ida e volta é perfeitamente viável hoje. O referendo protege as reivindicações dos manifestantes e faz com que os eleitores se aproximem REALMENTE da ideia do que é um representante.
O problema do plebiscito nem é o plebiscito em si. O país que mais realiza plebiscitos é a Suíça, que é um belo exemplo de país de primeiro mundo. Aliás, Suíça e Estados Unidos são dois exemplos de países bem diferentes, mas que têm uma forte tendência à descentralização. A América Latina é supercentralizada. Alguém participa de uma manifestação e exibe um cartaz com a seguinte inscrição: "DILMA, ME TIRE DAQUI!". Esses países da América Latina fortemente centralizados possuem uma tendência igualmente forte de produzir fenômenos políticos como o caudilhismo, por exemplo. Já em um país descentralizado, como a Suíça, o plebiscito é uma forma autêntica de manifestação do desejo popular.
Essa discussão levanta outra questão: o quão repleto de mediações é o corpo político de uma sociedade. Quanto mais mediações tem, mais o plebiscito aterrissa na forma de debates laterais para depois afunilar. Em países de pouca mediação institucional, o que acontece é que o plebiscito se tornará uma ponte direta entre as autoridades e a massa. Nós temos que transformar a discussão sobre o plebiscito no Brasil em algo que se aproxime à discussão sobre uma telenovela de grande audiência. No Brasil, uma telenovela só é considerada um grande sucesso quando as pessoas começam a discutir sobre ela no trem, no trabalho, na escola etc. É a formação partilhada da preferência. Quanto mais partilhada for a formação, mais as pessoas conversam lateralmente, mais massa crítica tem. Quanto mais elas decidem sozinhas, olhando para cima, menos partilhado é.
As Manifestações de Junho de 2013 e a Homofobia de Marco Feliciano
Uma das bandeiras levantadas pelos manifestantes nos protestos feitos nas ruas foi a luta contra a homofobia e, em consequência, contra figuras nefastas que emporcalham o Congresso Nacional, como Marco Feliciano. Apesar de tosco, Feliciano é muito sagaz. Ele já percebeu que este momento, para ele, é uma oportunidade única. Os partidos comprometidos com os direitos humanos até então abandonaram a comissão de direitos humanos porque entenderam que ela é pouco rentável. Feliciano viu nisso uma oportunidade e se aferrou a ela como um náufrago se aferra a um toco de pau. E ele vai tirar desse pau seco o suco que ele conseguir tirar. Ele vai botar toda a pauta conservadora dele nessa comissão, dificilmente essas coisas vão prosperar e ele terá conseguido tudo o que ele queria.
Mas a pergunta que não quer calar é: por que ele está aprontando toda essa confusão? A minha resposta é que ele está aprontando toda essa confusão para ter concentrada na figura dele uma porção considerável do voto conservador, porque existe uma porção significativa do eleitorado conservador e religioso que se distribui por candidatos menores que nem têm chance de vencer. E essas pessoas, que antes estavam desorientadas, agora têm para onde olhar. Elas olham em direção ao Feliciano. Ele vai ter uma votação estrondosa nas próximas eleições por esse segmento e vai reconduzir a sua vidinha sem efetivamente poder provocar nenhum dano severo. Ele vai ser neutralizado pelo processo democrático brasileiro, não há a menor dúvida disso. Mas vai enxugar o voto de muita gente, com certeza.
É claro que ele vai se reeleger, pois grande parte dos eleitores dele compartilha de ideais homofóbicos e de ódio nutridos pelo deputado. A posição de Marco Feliciano dentro do cenário conservador é bem específica: ele é um evangélico fundamentalista que trava uma batalha contra os homossexuais (com a ajuda de outros excrementos como João Campos, do PSDB de Goiás) e que, portanto, tende a capitalizar muito esse tipo de voto. Há outras posições que podem ser elencadas como conservadoras do ponto de vista político que não têm nada a ver com essa postura ridícula de Feliciano. Por enquanto, os manifestantes venceram a primeira batalha, pois o projeto apelidado de "cura gay" foi retirado da pauta da comissão, embora seu criador, João Campos, não tenha admitido que tenha retirado por pressão popular.
O Trabalho da Imprensa Durante os Protestos
O trabalho da imprensa durante os protestos também foi muito difícil. Caco Barcellos, da Globo, foi muito hostilizado por manifestantes mais exaltados. Carros da Record, do SBT e da Bandeirantes foram incendiados. Isso, sem falar de repórteres que foram atingidos por projéteis de borracha disparados pela polícia. Nessa questão dos maus tratos à imprensa também é importante não misturar as coisas. Em primeiro lugar, a situação da Rede Globo é bem pior do que de todas as outras. A Rede Globo teve que inventar o jornalismo de edifício, porque já não conseguia caminhar nas ruas, no meio de outras pessoas. Essa hostilização da Globo por meio de outras pessoas acontecia por causa do papel que a TV Globo exercia no passado, de manutenção de uma ordem autoritária estabelecida.
Até hoje as pessoas não se esqueceram do papel de pelego que a Globo exercia durante a ditadura militar e, por isso, a emissora ainda paga o preço. Por outro lado, a Globo passou toda a sua cobertura tentando dirigir o movimento, tentando fazer ela uma interpretação do que era o movimento. Por isso os repórteres da Globo tiveram que esconder a logomarca da emissora várias vezes nas ruas. Outra coisa foi o que aconteceu com os outros repórteres, que não precisaram se esconder, nem esconder o logo das respectivas emissoras. Então, são coisas diferentes. Uma coisa é o sujeito ser hostilizado sem ser agredido, como foi o caso do Caco Barcellos, outra coisa é tiro da polícia e vandalismo. Estão juntando coisas que têm que ser desmembradas.
Agora, quem hostilizou Caco Barcellos, provavelmente, nunca leu Rota 66. Mas também talvez tenham hostilizado o Caco não em fator do repórter em si, mas em fator de quem paga o salário dele. O problema dos manifestantes é onde o Caco trabalha e, por isso, ele tem que pagar o ônus de ser hostilizado pelo fato de ele trabalhar nessa empresa. O Caco Barcellos é uma grande figura pública, mas foi hostilizado porque as pessoas não toleram a presença da Globo numa manifestação pública como essa. E essa antipatia foi sendo construída ao longo dos anos, tanto durante a ditadura militar quanto durante a agonia da mesma, quando parte significativa da população foi às ruas e exigiu eleições diretas para presidente da república.
O Perfil do Eleitor-Telespectador Brasileiro
No Brasil, eleitor e telespectador são a mesma pessoa, pelo menos na maior parte das vezes. No Brasil, que é um país de escolaridade tardia, com uma população de baixa escolaridade, sem a experiência da leitura, a imagem e a narrativa audiovisual têm um peso fundamental. Está aí o êxito da televisão, o êxito da TV Globo, o êxito dos vídeos do Youtube para confirmarem esse fato. Por isso, podemos dizer que o eleitor brasileiro também é um telespectador e também por isso também podemos dizer que ele é tão exigente com um político diante da televisão, porque ele transfere para a política a exigência que ele tem como telespectador. Então, a narrativa política tem que ser tão enfeitada e cheia de recursos de ourivesaria quanto é a narrativa jornalística e a narrativa teledramatúrgica.
O eleitor-telespectador tem um olho já treinado e, por isso, possui um alto nível de exigência nesse aspecto televisivo, de transmissão de imagem. Se juntarmos essa característica sociológica de nossa formação com a profissionalização da política, veremos que a combinação dessas duas coisas torna tudo muito técnico. A política deixa de ser representação e passa a ser uma técnica de reprodução. E é nesse cenário que os marqueteiros passam a ter um peso muito grande, totalmente desproporcional, porque eles são técnicos da reprodução de narrativas armadas. Mas essa relação não se dá apenas em países com maioria de analfabetos, como é o caso do Brasil.
Na década de 1960, quando houve a transmissão de um debate entre Nixon e Kennedy, quem ouviu pelo rádio, preferiu o Nixon. Mas quem viu o debate pela televisão preferiu o Kennedy. E por que isso aconteceu? Kennedy era bonitão, estiloso, charmoso, e isso chamou a atenção, pois a televisão é um veículo que privilegia a imagem e nem tanto a mensagem. Mas o rádio é uma mídia cega, onde o que vale é a mensagem e nunca a imagem. E, através dessa mídia cega, que é o rádio, quem venceu o debate foi Nixon (na opinião dos ouvintes). É evidente que num país de analfabetos esse contraste tende a ser mais gritante, mas a questão da imagem na sociedade contemporânea está muito presente, inclusive nos movimentos sociais. O marketing também está presente aí, como mostra, por exemplo, o documentário A Hora Mais Escura.
As Manifestações Populares de Junho de 2013 no Brasil
O pronunciamento da presidente Dilma a respeito das manifestações de junho de 2013 não foi muito incisivo. Em primeiro lugar, a Dilma nunca teve aquela imagem forte de estadista. Em seu pronunciamento na televisão, numa sexta-feira, ela dividiu os manifestantes em "do bem" e "do mal", e disse que vai dialogar com os manifestantes pacíficos. De uma forma geral, o depoimento da Dilma foi bem fraco e formal. Não teve nenhuma novidade e não ficou à altura do que está acontecendo nas ruas. Um depoimento em que ela reproduz o que os grandes veículos da mídia vêm divulgando, praticamente o que os editoriais dos grandes jornais impressos vêm alardeando.
Ao dizer que quer se reunir com os líderes do movimento, Dilma toma uma atitude inócua, pois ela chamou de líderes aqueles que não reconhecem a si mesmos como líderes. E, por outro lado, eles não podem ser líderes mesmo, porque o movimento extrapolou enormemente quaisquer tentativas que eles pudessem ter, tanto de representação quanto de controle. Isso aconteceu porque o movimento acabou incorporando um sem número de adesões que refletem o zeitgeist. Antes destas manifestações em 2013, como é que as pessoas se reuniam para participar de manifestações e para divulgá-las? Como se dava o processo de construção de uma manifestação? Através de dinâmicas institucionais muito claras: partidos, sindicatos, organizações previamente constituídas (basta lembrar de como começou a luta pela Anistia).
Antes do advento da internet e dos sites de relacionamento, qualquer tipo de engajamento tinha que necessariamente passar por algum tipo de dinâmica institucional, entendendo-se aqui o termo "institucional" como "pré-organizado", onde a pessoa, quando entra no processo, recebe um repertório, um legado, uma ordem (ordem no sentido de organização). Ela se encaixa em algo que está previamente instituído, que está institucionalizado. Hoje em dia, na era das Redes Sociais, vivemos exatamente o oposto: a institucionalização, se vier, virá depois. E o fato de não ter uma liderança se reflete na própria dinâmica da organização do movimento, pois a internet transforma um pouco essas práticas de comunicação em uma espécie de assembleia contínua: todo mundo fala o que quer, não tem um centro.
O fato de não ter uma ordem estabelecida faz com que o movimento acabe quase que de uma forma espontânea. A dimensão do instinto está muito mais presente do que a dimensão do pensamento. No que diz respeito à maioria das pessoas, sabemos que a relação com a internet é muito espontânea, instintiva, pouco reflexiva, e isso dificulta um pouco o processo. Quando a Dilma convoca os líderes do movimento, a impressão que dá é a de que ela desejasse que houvesse líderes. É como se a presidente realmente desejasse que houvesse por parte desse movimento de jovens revoltados com cobranças abusivas no transporte público uma liderança capaz de representar institucionalmente esse movimento.
Ao falar de corrupção e reforma política, Dilma pega aquilo que há de mais frágil nesse movimento e tenta canalizar em proveito próprio. A atitude de sair nas ruas e gritar que é contra a corrupção é inofensiva, pois não é assim que se combate a mesma. Contra a corrupção todos somos. Mas a corrupção é uma dinâmica institucional e o que precisa ser feito em relação a isso é uma mudança institucional. A corrupção só é um problema moral no momento em que você se indigna com ela. Depois, ela não é mais um problema moral, já passa ser um problema da ordem institucional do país. E a reforma política, se for isso que está em pauta há anos no Congresso, não vai adiantar em nada.
A única reforma política que pode dar certo no Brasil é acabar com a reeleição para os cargos legislativos como acontece hoje em dia no Brasil porque ela permite que se perpetue a classe política, transformando em profissão aquilo que deveria ser apenas representação, possibilitando essa excrescência que é o carreirismo político.
O assassinato que aconteceu em Ribeirão Preto (SP) é algo que não pode voltar a acontecer. A população dá uma representação aos manifestantes. Mas essa mesma população pode retirar essa representação. A população pode chegar a um momento em que pode ficar irritada com esses bloqueios nas ruas. E aí pode ter violência. É muito difícil pensar num tipo de manifestação dessa magnitude e não pensar que não vá ocorrer algum tipo de violência como essa que ocorreu em Ribeirão Preto.
No que se refere às autoridades públicas, não foram só elas que tiveram que recuar em suas posições. Houve poucas pessoas que não precisaram trocar de posição. As pessoas foram mudando de posição, a mídia foi mudando, os governos foram mudando. Primeiro, porque as pessoas foram sendo recebidas de maneira muito conservadora. As manifestações foram assim recebidas. Depois, porque as manifestações acabaram tomando um impulso que não se esperava porque as autoridades acabaram reprimindo no início. O Alckmin botou a tropa de choque nas ruas e o José Eduardo Cardoso ofereceu reforço federal. O governador botou nas ruas uma PM fora de controle que atirou com balas de borracha e jogou bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral em manifestantes pacíficos.
O prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, por sua vez, perdeu toda a autonomia que teria como prefeito da maior cidade do país porque ficou a reboque de um acordo político mal alinhavado com o governo do estado, e depois ficou sem autonomia para agir. E, no final, o recuo que ele fez foi típico de um governo sem alguma autonomia. Ao se renderem às reivindicações do movimento, as autoridades públicas não deram uma demonstração cabal de que reconhecem a democracia, pois foram pressionadas pela situação. E, por outro lado, também ficam devendo explicações sobre por que houve o aumento das passagens de ônibus, já que eles voltaram atrás.
O DATAFOLHA fez uma pesquisa entre os manifestantes sobre quem seriam os candidatos preferidos à presidência da República. O Joaquim Barbosa foi mencionado por 30% dos entrevistados contra 22% da ex-senadora Marina Silva e com 10% da Dilma, que está em terceiro lugar. O Aécio Neves está em quarto lugar, com 5%, e o Eduardo Azevedo está em quinto lugar, com 1%. O resultado dessa pesquisa é sintomático. A pesquisa foi realizada no cerne das manifestações, e, lá, uma das principais reivindicações foi a luta contra a corrupção. Por isso, é muito normal que em primeiro lugar apareça o "xerife" nessa luta contra a corrupção, porque o Barbosa está fortemente associado ao combate contra os mensaleiros.
Em segundo lugar, vem a Marina Silva, que passa a imagem de que é uma pessoa "do bem", que ela pode fazer uma ponte entre o alto empresariado e a classe C. Então essa pesquisa parece refletir tanto a expectativa quanto a ingenuidade, porque o Joaquim Barbosa sequer é candidato, ele nem é político. Com relação à presença dos políticos nesses eventos, as manifestações são assim mesmo. Nem toda manifestação que acontece em qualquer lugar precisa ser necessariamente e imediatamente aceita. Assim como toda a população foi se moldando e dando representação aos manifestantes, a polícia também está se saindo muito bem, pois no dia 13 de junho foi muito violenta e depois recuou. Esse é o jogo democrático.
No que concerne à pesquisa do DATAFOLHA, devemos lembrar que não foi por acaso que o Barbosa apareceu, porque a pesquisa foi estimulada. Havia lá uma lista exatamente com os nomes. Não é que as pessoas lembraram do Barbosa. É que, entre os nomes citados, 30% das pessoas entrevistadas escolheram o nome do Barbosa. Isso é reflexo do movimento em si mesmo, porque é um movimento totalmente ao arredio da ordem instituída. A ordem instituída é representada pela Dilma, pelos tucanos, pelo Aécio, no caso, que ficou mal na pesquisa, com 5%. E quais são os nomes que aparecem aí e que estão fora da ordem instituída, ou seja, fora do status quo? Os nomes do Barbosa e da Marina. Foi um lance bem sacado da Folha fazer isso para mostrar o perfil plural, o perfil aberto do tipo de pessoa que participa desse movimento. O movimento conseguiu reunir coisas muito díspares, muito diferentes.
No começo das manifestações, víamos a mídia ser contra o movimento. A mudança de posição foi devido ao grande número de adesões que o movimento passou a ter. A posição contrária se dava em relação ao vandalismo. Mas há muita controvérsia em relação ao uso dessa palavra "vândalo". Isso não contribui para um entendimento sobre o que está acontecendo. O sujeito que matou o estudante em Ribeirão Preto não é vândalo. Ele é um sujeito orientado, que estava sozinho e contra o movimento. Ele não estava envolvido pelo movimento. As pessoas não estavam atrapalhando o trânsito em Ribeirão Preto, elas estavam ocupando as ruas. A coisa já estava tão massiva que já não eram apenas três ou quatro atrapalhando o trânsito. Eram milhares de pessoas no meio da rua, o cara resolveu acelerar e matou uma pessoa. Ele é um criminoso, ele não é um vândalo. E ele não é alguém que estava no movimento.
A moça que morreu no Pará morreu por causa de uma bomba da polícia, e também porque ela era hipertensa, a bomba explodiu perto dela, ela tomou um susto com a explosão e morreu. Há vândalos no meio do movimento, mas ainda não é possível conhecer o percentual exato de vândalos que existem no movimento. Porque há outros que não são vândalos, são manifestantes violentos, o que é totalmente diferente. Por exemplo, o estudante de arquitetura que depredou a fachada da prefeitura de São Paulo, ele não é vândalo. Ele é um estudante de arquitetura que trabalha ao lado do pai. Ele não é alguém que está solto no mundo e aproveita o movimento para vandalizar. Ele não é alguém que está ali sem propósito.
Em Porto Alegre há um grupo anarquista que pensa que tem que quebrar tudo por posição política. Isso acontece porque eles acham que é só quebrando tudo que eles vão chamar atenção para o movimento. Aquele que acelerou o carro e matou o estudante em Ribeirão Preto não é um vândalo, é um bandido; porque ele não era manifestante. Por outro lado, temos que reconhecer também que o uso da violência por parte de alguns manifestantes abre uma brecha para o uso da violência de outro lado. A manifestação em si é uma interrupção da ordem político-social que, pela extensão e pela quantidade que revelou, significa uma crise de representação política que se impôs como um problema de pauta nas relações sociais e políticas. Agora, as manifestações de violência, seja de um cara que pegou carona nessa onda e quer descolar um i-phone de graça, seja de um anarquista ou seja lá o que for, a extensão da supressão da ordem pública, abre espaço, ao longo do tempo, necessariamente, para aumentar a violência.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
A Fúria de Um Crente Retardado
Certa vez, lendo uma matéria em um blog no qual o autor detonava (sem sentido algum) o André do site Ceticismo.net, deparei-me logo de cara com um comentário esdrúxulo e raivoso de um crente retardado. O comentário era o seguinte:
"A bibaiada ateísta realmente enche o saco. Nada contra quem é ateu. Se a cabecinha deles é tão pequena que pode explodir ao tentar entender algo que eles não vêem, eu não ligo… O que realmente enche o saco são esses ateus militantes que ficam querendo fazer o mundo acreditar nas merdinhas deles e ficam ainda com isso se achar 'homens lógicos, da ciência e outros bla bla blas dos ateus'."
E depois essa corja ainda têm a cara-de-pau de dizer que não é homofóbica. Com o crânio cheio não de miolos mas de bosta de cachorro, eles têm a postura imbecil de afirmar que quem defende os direitos civis de homossexuais também são homossexuais. O mongolóide ainda se contradiz, dizendo que não tem nada contra ateus e depois chama-os de "bibaiada". O crente é tão tosco que, na mente retardada dele, o mesmo pensa que o ateísmo é resultado de uma ausência de experiência visual de algo ("tentar entender algo que eles não vêem"), quando, na verdade, é resultado da TOTAL ausência de evidências de que exista algo de sobrenatural por trás dos fenômenos naturais. É claro que os absurdos, a falta de lógica, a inverossimilhança, a desumanidade e as incoerências dos livros sagrados (não apenas da bíblia) ajudam muito a chegar à conclusão de que, se existe algum deus (MUITO improvável) ele não deve ser algum dos descritos nos livros ditos "sagrados" (bíblia inclusa).
Peguemos como exemplo o deus que odeia vogais, o deus hebraico YHWH. O Velho Testamento é um verdadeiro show de horrores, além de possuir muitas incoerências e contradições que os vendedores de ilusão apologistas tentam infrutiferamente refutar com malabarismos hediondos. Não há como defender uma ideia indefensável, mas na cabeça torta de um crente tosco, há. E outra: é MUITA cara-de-pau desse retardado dizer que ateus militantes querem "fazer o mundo acreditar nas merdinhas deles". Quem faz isso são os fanáticos religiosos, esses fundamentalistas raivosos débeis mentais que acreditam em historinhas idiotas como a da cobra falante, do dia parado de Josué, do dilúvio global e outras bobagens. Ateus cuidam da própria vida, não fazem proselitismo. Eu, particularmente, quero que o resto de mundo se exploda. Não me preocupo se outras pessoas acreditam em A ou em B. Respeito o direito das pessoas acreditarem no que quiserem, até nas merdas que estão na bíblia. Débeis mentais como esse crente retardado dificilmente entenderão, de tão idiotas que são, que o ateísmo militante é simplesmente uma reação contra o fundamentalismo raivoso e totalitário e o proselitismo imbecil. Quando retardados como esse pararem de encher o saco de outras pessoas, tentando convencê-las a se converter a essa religiãozinha de bosta que é o cristianismo, aí o ateísmo militante acaba. Simples.
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