segunda-feira, 29 de julho de 2013

Feliciano e as Suas Mentiras em Nome do Ódio


Feliciano começa as suas mentiras dizendo que é perseguido por um grupo. Mas não é justamente o deputado que vive escrevendo coisas no twitter contra determinados grupos? O que ele queria? Ficar escrevendo abobrinha e ficar sem respostas? É muito cinismo dele querer se colocar na posição de vítima agora. Depois ele faz uma acusação grave, sobre pedofilia. Ora, se ele tem tanta certeza de que ocorreu esse crime, por que ele não denunciou? E, se denunciou, a quantas anda esse processo? Ele não informou nada sobre isso, o que deixa um ar de dúvida sobre essa "denúncia". E, se ele sabe de uma coisa tão grave e não denuncia, ele também está sendo criminoso.

São mostradas cenas de manifestantes na CDH. Depois, o deputado diz que "a bandeira do PSC é a família". Mais uma mentira. Ele não defende a "instituição família", pois esta, como tudo na sociedade, também evolui. Hoje em dia, para que se esteja em consonância com os direitos humanos, é preciso defender TODOS os modelos de família. O deputado defende UM modelo de família, que, como bem escreveu o Robson, do blog Consciência, é o modelo cristão, heteronormativo, patriarcal e autoritário. Esse discursinho resvala na questão da intromissão da religião em assuntos que não lhe dizem respeito em um Estado laico.

Feliciano fala com menosprezo das manifestações, perguntando se havia "algum pai de família" no meio dos manifestantes. É o "brilhante" argumento que ele usa. Como se a ausência de "pais de família" invalidasse o protesto contra o péssimo parlamentar que ele é. Ele também se orgulha de ter, segundo ele, reunido vinte mil pessoas em uma palestra em Rondônia. É óbvio que ele atende à demanda de conservadores, que, infelizmente são a maioria no Brasil. Um tipo tosco, antidemocrático e fascista como Feliciano dificilmente prosperaria em um país desenvolvido, como a Suécia, por exemplo. Em um país miserável como o Brasil, onde a maioria das pessoas é formada por conservadores e analfabetos, tipos como Feliciano, Maluf, Renan Calheiros, Sarney, Collor e outros sempre irão prosperar.

Feliciano mostra as suas garras de mau caráter quando fala mal da classe artística brasileira. Ele tenta tomar cuidado para não generalizar, mas acaba generalizando, quando fala, no final, que não é "pautado" pela vida dos artistas, mas é pautado pela vida dos "trabalhadores" do Brasil. Ou seja, para esse escroto, artista não trabalha. Ele diz que foram "apenas cinco artistas" que protestaram contra ele, mas a classe artística em peso se declarou contra esse fanático religioso. Quando ele fala com menosprezo dos artistas, ele encarna tudo o que há de mais podre e retrógrado que já existiu no passado e só nos faz lamentar por viver em um país onde a maioria vive no esgoto da podridão intelectual e elege um tipo como esse para legislar em nome do povo.

O deputado fala de um suposto ataque de atentado ao pudor praticado por um grupo de degenerados. É um relato duvidoso. Veja bem que ele tem conhecimento de vários crimes, mas parece não denunciar nenhum. Depois, ele se faz de coitado (falácia de coitadismo, muito usada por fundamentalistas para se fazer de vítima e atacar seus detratores) e diz que a família dele está "sofrendo". Deveria ter pensado nisso antes de adotar uma postura fascista e intolerante. Mas o pior é que, ao "denunciar" o que os degenerados fizeram em vias públicas para provocá-lo, ele parece querer dar a entender que TODOS os militantes do movimento LGBT se comportam dessa maneira. É um absurdo como ele gosta de manipular e distorcer fatos...

Uma das falácias mais usadas por fanáticos religiosos em geral é a falácia ad populum. Ou seja, só porque a maioria da população defende uma determinada proposição não significa necessariamente que essa dada proposição esteja correta. Feliciano ataca com essa falácia ao afirmar que a maioria do povo brasileiro é contra o assim chamado "casamento gay". A bronca dos fanáticos é que esse assunto deveria ser resolvido pelo Congresso, mas isso é uma jogada mesquinha. Se ficasse a cargo do Congresso, isso NUNCA seria resolvido. Portanto, o STF, de maneira justa, decidiu uma pauta que o Congresso empurrava com a barriga e que, na maioria dos países de primeiro mundo já foi decidida, como nos Estados Unidos e na França.

Pergunta: "Pastor, eu gostaria de saber se o senhor concorda que quem segue a palavra de deus pode incentivar o ódio". Para "responder", ele comete falácia de inversão. Ele se faz de coitado, de perseguido, e diz que quem incentiva o ódio são as pessoas perseguidas pela irracionalidade do deputado. Outra pergunta: "Deputado Feliciano, eu gostaria de saber se o senhor respeita as opiniões que são diferentes das suas." Ele apenas cita a famosa frase de Voltaire sobre defender o direito ao contraditório. Terceira pergunta: "Pastor, o senhor já sofreu algum tipo de preconceito?". Ele aproveita para se fazer de vítima novamente e relata como já sofreu, já foi chamado de Capitão Caverna (para mim, seria um elogio, um dos meus personagens preferidos) etc.

Ratinho lê um twitt bisonho do deputado sobre "ditadura gay" e pergunta se existe mesmo essa ditadura. Feliciano responde que existe, baseado no fato de que há vários projetos que defendem a causa gay no Congresso. Mas não seria uma hipérbole por parte dele? Chamar de "ditadura" um movimento que não quer prejudicar ninguém, apenas garantir direitos individuais? Mas o pior vem em seguida. Ratinho cita o twitt em que Feliciano afirma que africanos descendem de ancestral amaldiçoado pelo personagem bíblico Noé. Além dessa historinha ser de uma imbecilidade sem tamanho que nem vale a pena ser discutida, é curioso saber quem é tão idiota a ponto de, em pleno século 21, fazer perguntas sobre a formação dos continentes a um teólogo ao invés de fazer essa pergunta a um geólogo...

Mais uma pergunta de uma pessoa nas ruas: "Senhor Feliciano, se o senhor tiver, um dia, um filho homossexual, qual será a sua reação?". Na resposta, Feliciano dá a entender que o lar no qual é formado um homossexual não é um lar sadio. Tamanha demonstração de preconceito não espanta vindo de um fundamentalista cheio de ódio, mas espanta saber que é alguém com esse perfil nojento que preside a comissão de DIREITOS HUMANOS. Como é de esperar, ele ataca o PL-122, algo que já virou lugar-comum entre fundamentalistas raivosos. Enfim, a questão desse projeto só diz respeito aos homossexuais. Mas, antes disso, ele se faz de vítima novamente e diz que a mídia distorce tudo o que ele fala e o coloca de "vilão". Eu é tenho pena da mídia, do tanto que ela apanha desse tipo de gente...

Ratinho lê uma mensagem de um telespectador de tendências nazistas que lança a expressão "heterofobia". O deputado, na maior cara de pau, concorda: "com certeza!". Restou perguntar ao deputado e ao nazista que fez a pergunta quantos grupos de gays que saem às ruas espancando e matando heterossexuais. Ele demoniza as pessoas que estão na luta verdadeira de direitos humanos e, novamente, se coloca na posição de vítima, dizendo que os ativistas estão lutando contra o "pensamento" dele. O pensamento dele é o seguinte: "A podridão dos sentimentos Dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, a rejeição." Um pensamento cheio de "amor", não é mesmo? Ele tenta contornar e dizer que essa declaração aconteceu devido à uma ameaça que ele sofreu, mas por que ele não apresentou o B.O. da ameaça às câmeras do SBT?

Em seguida, ele diz que a homossexualidade não é "normal". Claro, que não é, já que a "norma" estabelecida é a heterossexual. Mas também não é desvio, pois é natural, está na natureza, e não prejudica a terceiros. Depois, ele cita um caso de atentado ao pudor como se esse crime fosse exclusividade de gays. Ratinho coloca no ar vários twitts do deputado, um mais absurdo do que o outro. É absolutamente enojante o show de falácias do deputado que PENSA que representa a maioria. Triste pensar que o fundamentalismo religioso ganha cada vez mais espaço dentro do cenário político brasileiro...

Falácias de religiosos no Hora Brasil


O padre indaga: "O cérebro acaba, mas ele teve um começo. Então, de onde veio o cérebro, de onde veio os seus sentimentos, de onde veio a sua vida? Brotou do nada, caiu do céu de repente?". Não sei se o padre estava falando sério quando formulou esse "argumento", mas é risível, de tão infantil. Aqui ele usa a batida falácia de apelo à ignorância. Implicitamente ele quer dizer que quem fez o cérebro, os sentimentos, a vida, enfim, foi o personagem inverossímil defendido por ele.

Do outro lado, outro religioso completa: "É como dizer que teve uma explosão e aí tudo aconteceu". Outra afirmação extremamente tosca. Neste caso, estamos diante de um espantalho, pois o big bang não foi uma explosão. Típico caso de analfabetismo científico.

Os religiosos encerram com uma pérola: "quem acendeu o pavio [para a suposta explosão]?". Aqui, além de total ignorância científica, temos mais ad ignorantiam. Ou seja, mais do mesmo, nenhuma novidade. Total falta de argumentos racionais por parte dos religiosos.

Caricatura de um "Mundo Ateu" segundo a visão torta de um crente acéfalo


Em minhas prospecções pelo Youtube, encontrei um vídeo intitulado "Um Mundo Ateu". É um vídeo que apresenta uma caricatura do que seria, segundo a visão de um fundamentalista cristão, um mundo dominado por pessoas racionais, desprovidas de crenças em mitologias ancestrais. Como não poderia deixar de ser, o vídeo é um desfile de mentiras, distorções e falácias. Há predominância de imagens sombrias para ilustrar um texto eivado de preconceitos e "chutes". Não dá para levar a sério um vídeo que, na verdade, é um exercício ficcional que tem o intuito de levantar a bola do fundamentalismo religioso em detrimento de um mundo mais racional. Mas vale a pena conferir, nem que seja para ver onde chega o "talento" de alguns fundamentalistas de orientação cristã.

O vídeo é uma palhaçada. Começa com um exercício de imaginação que só pode passar pela cabeça podre de um fundamentalista quando expõe a seguinte frase: "Imagine um futuro distante onde o cristianismo foi esquecido e o mundo ignorou há muito a verdadeira moral que emana de Deus..." Ridículo. A "verdadeira moral" que emana desse deusinho podre referido pelo vídeo inclui apedrejar pessoas por adultério, matar sumariamente pessoas apóstatas, punição severa para pessoas que violem o "sábado sagrado" e outras barbaridades advindas de uma "moral absoluta". A verdadeira moral evolui junto com a sociedade. Na Idade Média, instituições religiosas consideravam moralmente correto matar pessoas na fogueira como punição para o que consideravam crimes. Hoje em dia, nenhuma instituição religiosa séria cogita em aplicar pena de morte a pessoas que desafiem seus dogmas. A moral humanista é infinitamente superior a essa "moral" assassina das doutrinas religiosas, principalmente da cristã.

Certamente uma pessoa civilizada e em sã consciência nem hesitaria em condenar a prática da escravidão. Mas, segundo a bíblia, é uma prática moralmente aceita. O personagem Jesus Cristo fez apologia da tortura de escravos na seguinte passagem: "Aquele servo (escravo) que sabia a vontade de seu senhor e não se preparou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites". (Lucas 12:47). Jesus NUNCA admoestou a prática da escravidão, utilizando-se da relação senhor-escravo em muitas de suas parábolas. Uma das coisas que realmente ajudou a acabar com a escravidão foi a filosofia humanista que influenciou os ideais da revolução francesa, incorporando bandeiras como a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A verdadeira moral evoluiu através de discussões racionais baseadas na empatia (um sentimento que é uma conquista da civilização) e na filosofia de orientação humanista e secular. Se dependêssemos da "moral religiosa" provavelmente ainda estaríamos na Idade das Trevas.

Em seguida, o texto idiota do vídeo tenta rebaixar a visão de mundo desprovida de crenças em divindades à condição da imbecilidade da fé. É óbvio que a fé é algo obsoleto para a ciência, onde o que importa são as evidências, mas um fundamentalista não possui inteligência ou honestidade intelectual para entender isso. Há um excelente texto de Richard Dawkins intitulado "A Ciência é uma Religião?" que joga luz sobre esse assunto. Para completar a caricatura, o crente que fez o vídeo ainda coloca a imagem de uma paisagem na penumbra, uma imagem sombria, que transmite a ideia de que pessoas desprovidas de fé em seres improváveis vivem "nas trevas". É exatamente isso que transmite o subtexto dessa passagem desse vídeo. Nessa mesma passagem, o texto afirma que o deus bíblico é apenas uma "lembrança de um outro tempo perdido na história". Apenas um exercício bobo de futurologia crental, sem mais o que acrescentar em termos de argumentos. Apenas bobagens de crente fundamentalista.

Na imagem seguinte, o crente define esse possível futuro como sendo "o império da razão" e o mostra como sendo um local escuro sob uma lua cheia. Isso diz muito sobre o pensamento de um fundamentalista. É uma inversão. Para um fundamentalista mais ferrenho, a razão realmente representa as trevas e a fé representa a luz. É justamente o contrário. O período histórico no qual a humanidade foi guiada pela fé ficou conhecido como Idade das Trevas, que só acabou quando a razão passou a ditar as regras, com o Iluminismo. Há um predomínio de imagens sombrias no vídeo para passar a ideia de que um futuro "mundo ateu" seria um "mundo escuro". Mais adiante, o texto continua insistindo na mentira de que existe uma "moral objetiva" e, o pior, seria advinda de um ser fictício. Como já demonstrei nos parágrafos anteriores, isso é uma mentira. A moral é construída através de valores seculares que também evoluem com a sociedade. Na verdade, a religião sequestrou a moral, tentando espalhar a mentira de que é uma exclusividade sua.

O texto toca no assunto do relativismo moral ao dizer que alguns "sentimentos que outrora eram vistos como inferiores e evitados, agora são aceitos em muitas situações e isso passa a ser visto de forma natural." Mais um show de mentiras. Aqui, talvez, o crente tenha querido se referir à homossexualidade, que em sociedades atrasadas era considerado crime e punido até mesmo com a morte, e hoje já é bastante tolerada. Mas o desavisado se esquece de que os próprios chefes do cristianismo tiveram que rever a sua posição diante da escravidão, mesmo com o "livro sagrado" apoiando-a. Isso prova que os cristãos também seguem um certo relativismo moral, caso contrário teriam que aceitar a escravidão como algo "normal", pois está lá, na bíblia, apoiada por figuras como Jesus e Paulo. E outra: muitos analfabetos funcionais confundem "natural" com "normal". Natural é o que está na natureza. Não é o homem que determina o que é "natural". Normal é o que é estabelecido como norma através de determinações prévias de determinada sociedade.

Mais adiante, o texto faz um espantalho sobre a seleção natural, o que não é de se admirar em se tratando de um texto escrito por um fundamentalista. Com criatividade de ficcionista distópico, o autor do texto molda uma sociedade futura ateísta com uma legislação baseada na seleção natural, uma caricatura bem exagerada. Parece ser um exercício infrutífero pensar em uma sociedade ateia sob a perspectiva de um fundamentalista. Hoje em dia temos sociedades cuja maioria da população é desprovida de crenças em divindades. A Suécia, por exemplo. Um país de primeiro mundo com mais de 80% da população que não está se importando muito com inutilidades como a fé religiosa. E daqui surge uma discussão interessante, pois os fanáticos costumam dizer que a Suécia tem altos índices de suicídio, mas se esquecem de dizer que o Brasil, com quase 95% da população formada por religiosos (a maioria, pessoas cristãs) possui altíssimos índices de criminalidade, com altas taxas de homicídio, latrocínio e outros.

A caricatura prossegue, dizendo que o homem desprovido de crenças em divindades vive com felicidade, mas a imagem que aparece é a de um palhaço chorando. Logo depois disso, o vídeo idiota termina de uma forma igualmente idiota, evocando a doutrina irracional do sacrifício, uma doutrina imbecil cultivada por povos primitivos, violentos e selvagens. Povos primitivos pensavam que derramando sangue, poderiam aplacar a ira dos deuses. O deus dos hebreus, então, teria mandado seu filho para morrer e apagar um erro imbecil que ele próprio teria cometido. Ou seja, nada inteligente para um deus perfeito. Mas essa é uma questão doutrinária interna dessa religião, muita gente considera plausível e nem vale a pena se estender nisso. Mas colocar uma doutrina estúpida como essa de "morte para salvar a humanidade" para fazer contraponto com uma sociedade racional é meio fora de propósito. Mas normal para um fundamentalista, tipo de gente que não prima muito pela inteligência.

O Papa Francisco e o Anacronismo da Igreja Católica


Eu não sei se a Igreja Católica tem que se modernizar, porque esse é um problema exclusivamente da instituição e daqueles que seguem a Igreja Católica e que ficam sempre com essa dúvida, se ela deve se modernizar ou não. O anacronismo da presença do Papa tem várias dimensões, e nós estamos vendo isso todos os dias. Por exemplo, o Papa fez uma pregação em que conclamou os jovens a se engajarem numa luta contra a corrupção (o que é muito correto, diga-se de passagem). Ele também tem um discurso de valorização da velhice, da infância, da juventude, da inclusão dos pobres etc. Mas, em momento algum ele incentivou os jovens católicos a vigiarem a própria Igreja Católica em seu atos de corrupção. A Igreja Católica está atravessada de corrupção, todo mundo sabe.

Em momento algum o Papa Francisco disse aos jovens da JMJ para ajudarem o Papa a combater a corrupção que emana da própria igreja. Em momento algum ele disse aos jovens para ficarem alertas em relação aos maus tratos da igreja com relação às crianças. Os casos de abuso sexual de padres contra crianças são notórios e conhecidos por todos. Ele tem que se manifestar SEMPRE contra isso e não apenas quando toma posse do cargo. Ele não pode simplesmente chegar em um país e se dirigir a multidões como se não estivesse acontecendo nada de grave nos bastidores da Igreja Católica. Ele tem por obrigação se dirigir a esses jovens e pedir que os mesmos ajudem a vigiar e combater as mazelas internas da própria Igreja Católica, vigiar a própria hierarquia da igreja nesse sentido.

O discurso do Papa Francisco é populista porque tenta ignorar toda a dimensão complexa e contraditória da própria instituição da Igreja Católica. Quando Bergoglio assumiu o Papado, ele até se comprometeu em combater a corrupção e os escândalos sexuais da igreja, mas o que ele não fez (e perdeu a chance de fazer durante a JMJ no Rio de Janeiro) foi conclamar a juventude católica a vigiar e combater esses males. Ele quer tratar esses problemas como sempre se tratou na igreja, como assunto que deve ser tratado internamente, sem uma partilha de responsabilidades com a própria comunidade eclesial. Talvez ele não tenha feito isso porque essas máculas ferem a imagem da igreja e mostram que essa instituição não é assim tão diferente de outras instituições humanas.

Todos esses problemas enfrentados pelo atual Papa (problemas que supostamente levaram o anterior a renunciar) mostram não apenas que a Igreja Católica é uma instituição falível, humana, que não tem absolutamente NADA de transcendente, mas também que, por ser MUITO hermética, muito fechada, os problemas internos podem ser até mais graves do que os de outras instituições humanas. Esse hermetismo da ordem eclesial mostra-se também como uma das faces que revela o gritante anacronismo dessa instituição medieval. Uma coisa é preservar os dogmas, que, por definição, são imutáveis. Outra coisa é tentar conciliar um discurso que tenta ser progressista com a manutenção desses mesmos dogmas ancestrais. Esse, talvez, seja o maior desafio que esse Papa possa enfrentar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A Questão dos Médicos Estrangeiros no Brasil



A reclamação dos médicos com relação aos vetos da presidente Dilma ao Ato Médico não é simplesmente uma questão corporativista, mas há aí também um interesse de mercado. O governo errou em não ouvir mais a Federação Nacional dos Médicos, mas não apenas essa entidade. Quando você permite que a situação se estruture de um modo que tenha o Estado de um lado e essas entidades de outro, a coisa fica complicada. Essas entidades estão por aí há muito tempo e a representatividade das mesmas, muitas vezes, é discutível. Nesse cenário, a situação para impasses é muito clara quando o governo pretende realmente estabelecer mudanças, porque qualquer mudança vinda de cima para baixo mexe em situações acomodadas. E essas entidades, por definição, são representantes de situações acomodadas.

O governo quer uma transformação, quer uma mudança, e ele não pôs em prática o método mais razoável, que seria o de ouvir, mas não o de ouvir essas entidades em si, não apenas elas. A questão de trazer os médicos estrangeiros para trabalharem no Brasil acarreta problemas que ainda não estão sendo abordados. O problema principal, no qual até podem ser notados traços de corporativismo, é que trazer médicos de fora significa aumentar a ideia de que a medicina é quem governa a relação médico-paciente porque a barreira da língua vai transformar essa relação em uma relação ainda mais muda por parte do paciente. A anamnese, que é aquele momento em que o médico ouve o paciente, que tem o repertório da história do seu corpo, do seu sofrimento, das suas dores, da memória da sua trajetória clínica, vai ficar comprometida em nome de uma "ciência" que se aplica indistintamente sobre todo mundo que está doente, padecendo de uma doença específica. Não é assim.

Nós sabemos que a doença aterrissa no indivíduo, ela "nasce" no indivíduo, ele tem uma história. E ninguém fala disso. Ninguém está valorizando a discrepância que vai haver entre o exercício da ciência médica e o paciente como porta-voz de sua própria dor.

A Crise da Representatividade no Brasil e no Mundo




O status quo da política no Brasil só vai mudar se a pressão das ruas continuar, ainda que não continue com a mesma frequência, porque esses movimentos são sempre sazonais. Mas essas evidências internas de tendência à acomodação depois da pressão inicial podem nos levar a não considerar o fato de que essas movimentações que aconteceram no Brasil são coisas que têm relação com uma crise que é mundial. Esta é um crise mundial de representatividade. A representação exercida por profissionais é que está em crise aqui, na Espanha, no Egito. É essa crise que vem se alinhavando. E as respostas que vem sendo dadas internamente são respostas dadas pelos políticos profissionais.

Na verdade, os políticos não estão dando uma resposta, eles estão é se preparando para dar o troco, porque as reivindicações do povo não vão se sedimentar enquanto não houver um questionamento efetivo da ordem no Brasil, da ordem burocrático-profissional da política brasileira, que é semelhante à realidade de outros países. A situação não vai se resolver com pequenas reformas. Aliás, é curioso, porque em países que possuem o voto majoritário distrital, eles veem os impasses e ficam pensando que seria melhor o voto proporcional com lista aberta, como tem no Brasil. E, no Brasil, como temos os mesmos impasses, eles ficam pensando que seria melhor o voto distrital, como tem em outros países.

Isso é sinal de que o problema não está aí, e, portanto, o problema não está na ordem que os políticos profissionais podem nos dar, na resposta que eles podem nos dar. Não. A resposta está num plano muito diferente, que é o de questionar o fato da representação, não a gestão ou o judiciário, mas a representação, o fato da representação ser exercida por políticos profissionais que têm a possibilidade de se reeleger infinitamente. A quebra desse paradigma, desse fenômeno infeliz gerado pela representatividade, que é o carreirismo político, é que teria que ser o alvo principal dessa possível reforma política. E esse tipo de questão está nas mãos de quem não tem o menor interesse em que isso seja efetivado.

Vejamos o caso de Renan Calheiros. Renan diz que é representante e que o avião pode ser usado para o exercício da representação. Mas em um casamento de um correligionário? Eles estão absolutamente misturando a dimensão da representação, que eles incorporaram como uma profissão em qualquer atividade que eles tenham que desenvolver e nas quais eles empreguem o tempo deles. É evidente que essas quantias como a que foi gasta por Renan são irrisórias. O gasto do Renan foi o que apareceu, mas o que tem de viagem dá uma soma grande. Essa soma pode dar, provavelmente, alguns milhões. Esses alguns milhões não tapam sequer um buraco de cárie. Então por que isso tem importância? Não é pela razão econômica, é pela razão simbólica.

Uma postura como a do senador Renan Calheiros mostra o divórcio que há entre os políticos profissionais e o tipo de representante que o povo gostaria que estivesse lá. A representação é um fluxo da sociedade no sentido em que a sociedade se manifesta e precisa se reconhecer em seus representantes. Não é como no Executivo, onde o representante não é necessariamente um representante, mas um gestor. Ele não precisa ouvir a sociedade o tempo inteiro, mas o legislativo, sim. A sociedade é fluxo, mudança, e políticos como Renan transformaram isso numa rotina, numa estrutura própria totalmente separada. O bom desses privilégios é que a imprensa pode iluminar essa distância, essa ausência de fluxo.

A imprensa realmente explicita a existência de rotinas absolutamente cristalizadas que mostram como os políticos profissionais estão de costas para nós. Quando a repórter pergunta ao Renan Calheiros se é ético usar dinheiro público em viagens particulares, ele dá uma resposta absurda para ver se cola e, quando percebe que não cola, se vê obrigado a voltar atrás. Um político voltar atrás significa que nós, o povo, estamos ganhando terreno? Duvido muito. Os políticos é que estão tentando ganhar tempo, porque na hora em que houver um recuo nos protestos, políticos profissionais como o senador Renan Calheiros voltarão a desfrutar dos mesmos privilégios espúrios que desfrutam exatamente neste momento.

O primeiro impacto das manifestações não foi eleitoral, e sim de imagem pública (vide a popularidade da Dilma, que despencou vertiginosamente após os protestos), mas isso não conta para a eleição, onde o que vale é uma imagem que também é rotinizada. Se não houver desdobramentos das manifestações até 2014, poderemos ter uma regressão nos avanços. Discute-se muito sobre o plebiscito, mas deveria haver plebiscito E referendo. As duas coisas, pois há demandas que só o plebiscito poderá resolver, e o referendo servirá para a aprovação ou não do que foi decidido no plebiscito. O fato dos políticos profissionais se mostrarem interessados nessa discussão parece ser mais uma artimanha para empurrar as coisas com a barriga e fazer as pressões por mudança esfriarem.

A Resposta dos Políticos às Manifestações




O risco que corremos agora é o de que a resposta dos políticos às manifestações não seja uma resposta, seja um troco. Isso mesmo, Os políticos podem querer dar o troco. E dar o troco significa o seguinte: tomar medidas e adotar alternativas de mudança que vão se transformar numa reforma CONTRA a mudança, uma reforma que vai dificultar ações como essas que ocorreram, que vai dificultar a representação. Agora, sobre plebiscito e referendo, o ideal é que tivesse as duas coisas. O plebiscito é para perguntar antes o que o Congresso DEVE fazer e o referendo vem depois para perguntar se o Congresso FEZ aquilo que o plebiscito diz que o Congresso DEVERIA fazer. Por quê? Porque um plebiscito não deve se debruçar sobre detalhes.

A pergunta de um plebiscito, neste caso as perguntas, deve ser muito técnica. As perguntas devem ser muito técnicas. Então, os eleitores fazem uma escolha num plebiscito. O Congresso, como representante (vamos dar um voto de confiança nele), vai se sentar e, bem desconfiado, vai fazer um corte. Muito desconfiados, eles fazem uma mudança lá à luz do que o plebiscito decidiu e aí eles voltam com o referendo para que o eleitor diga se a mudança que eles fizeram tinha a ver com o que o plebiscito decidiu antes. Esse jogo de ida e volta é perfeitamente viável hoje. O referendo protege as reivindicações dos manifestantes e faz com que os eleitores se aproximem REALMENTE da ideia do que é um representante.

O problema do plebiscito nem é o plebiscito em si. O país que mais realiza plebiscitos é a Suíça, que é um belo exemplo de país de primeiro mundo. Aliás, Suíça e Estados Unidos são dois exemplos de países bem diferentes, mas que têm uma forte tendência à descentralização. A América Latina é supercentralizada. Alguém participa de uma manifestação e exibe um cartaz com a seguinte inscrição: "DILMA, ME TIRE DAQUI!". Esses países da América Latina fortemente centralizados possuem uma tendência igualmente forte de produzir fenômenos políticos como o caudilhismo, por exemplo. Já em um país descentralizado, como a Suíça, o plebiscito é uma forma autêntica de manifestação do desejo popular.

Essa discussão levanta outra questão: o quão repleto de mediações é o corpo político de uma sociedade. Quanto mais mediações tem, mais o plebiscito aterrissa na forma de debates laterais para depois afunilar. Em países de pouca mediação institucional, o que acontece é que o plebiscito se tornará uma ponte direta entre as autoridades e a massa. Nós temos que transformar a discussão sobre o plebiscito no Brasil em algo que se aproxime à discussão sobre uma telenovela de grande audiência. No Brasil, uma telenovela só é considerada um grande sucesso quando as pessoas começam a discutir sobre ela no trem, no trabalho, na escola etc. É a formação partilhada da preferência. Quanto mais partilhada for a formação, mais as pessoas conversam lateralmente, mais massa crítica tem. Quanto mais elas decidem sozinhas, olhando para cima, menos partilhado é.