segunda-feira, 29 de julho de 2013

O Crente Que Urubuzou O Jornalista Paulo Lopes


Como é de conhecimento público, o jornalista Paulo Lopes sofreu um infarto. Ele, que mantém há anos um blog onde denuncia as atrocidades cometidas por fundamentalistas religiosos e a irracionalidade das religiões. Como não poderia deixar de ser, os urubus do fundamentalismo se aproveitaram desse lamentável fato para tentar converter o jornalista. Num texto bisonho, o leitor Claudecir começa dizendo que ficou comovido com o triste acontecimento. Até aí, tudo bem.

Em seguida, ele diz que, para um ateu, a doutrina cristã da "salvação" é ofensiva. Não, não é. É apenas idiota. Não existe NENHUMA comprovação científica de que exista vida depois da morte. E, mesmo que existisse, caberia ao crente PROVAR àquele que ele está a fim de "converter" de que a "realidade sobrenatural" por ele defendida é mais "verdadeira" do que a "realidade sobrenatural" defendida, por exemplo, pelos kardecistas. Caberia ao crente cristão provar que, ao invés de "evolução espiritual através de sucessivas reencarnações", o "espírito" passaria pelo que está descrito literalmente na bíblia.

Para o leitor em questão, quem não entende o primitivo texto do NT está com o "coração armado". Típico argumento falacioso de apelo à emoção. Céticos e ateus são racionais, coisa que a maioria dos fundamentalistas parece desconhecer. Tanto é, que ele sugere que o jornalista "desligue" o intelecto para poder "entender" a mensagem da bíblia. Só assim para um crente rebaixar um cético ou um ateu à condição do esgoto intelectual do fundamentalismo. Pura falácia ad hoc na frase: "as coisas espirituais não podem ser discernidas intelectualmente."

A falta de respeito começa no terceiro parágrafo. O crente afirma que a perspectiva do jornalista acerca da vida é "pobre". E o que seria, na visão do crente, uma perspectiva "rica"? Viver confiando em uma mitologia ancestral, que nem um esquizofrênico? Comportar-se igual um retardado que confia em uma ilusão? Depois de se julgar superior ao jornalista, o crente faz as costumeiras ameaças de crédulo desesperado e sem argumentos racionais. Ele parece delirar e diz que o jornalista será "prisioneiro das consequências de suas escolhas."

Em seguida, vem a "aula" de cosmologia e biologia: "Acha mesmo que um universo tão complexo surgiu do nada e evoluiu até a existência do homem no único planeta do sistema solar em condições exatas para a vida? Se estudar o cosmo, verá uma imensidão de galáxias, se estudar os seres vivos encontrará uma complexidade de tipos e tamanhos (do macro ao micro) e o que dizer da flora?!!". Sabe o que isso quer dizer? NADA! Ele pergunta "acha", mas ateus não acham nada, ateus estudam, pesquisam e duvidam. Quem costuma "achar" é fundamentalista, achando chifre em cabeça de gato e desprezando a Navalha de Ockham ao formular ideias idiotas como essa de "criacionismo", adicionando complexidades sem resolvê-las.

Se o crente REALMENTE estudasse cosmologia para valer, saberia que buracos negros (os objetos mais monstruosos do universo) engolem tudo num raio de alguns trilhões de quilômetros; saberia que galáxias colidem; saberia que supernovas explodem liberando quantidades absurdas de energia devastadoramente destruidora; saberia que planetas saem de suas órbitas e colidem com outros (a nossa lua foi formada assim); saberia que, na natureza, predadores estraçalham suas presas, fisicamente inferiores e vítimas fáceis de um ciclo cruel de morte que mantém a vida; saberia que a vida humana é tão frágil que pode ser aniquilada por uma simples bactéria. Se tudo isso é obra de um "planejador inteligente", parece que ele não é tão inteligente assim... Ou deve ser um sádico de marca maior.

Em seguida, o crente não se conforma com a realidade de que tudo acaba. Pobre ser humano... Se agarra a ilusões tão débeis... Mas o pior é o tipo fundamentalista, que, além de se alienar no mar da ilusão religiosa, ainda tenta arrastar outros para essa cadeia de delusão, nessa hedionda godelusion. Que tipo de doença mental é essa em que a vítima ainda deseja que outros sofram do mesmo mal, que fiquem delirando que existe uma "outra realidade" (coisa de esquizofrênico), que sigam mitos ancestrais inventados por povos sanguinários e genocidas?

Prosseguindo, o crente dispara a sua máquina de achismos: "Tem que existir um criador que tem um plano para tudo isso e nós somos seu foco principal. Tem que existir uma eternidade, caso contrário essa vida temporal não teria sentido." Como vemos, a vida TEM que ser como o crente quer, ele não aceita a realidade e adota uma "realidade alternativa". E novamente o papo furado de que para tudo TEM que ter um sentido. É curioso ver a falta de sofisticação de alguns crentes em adotar ideias ingênuas e tentar moldar a realidade de acordo com os seus desejos íntimos. Nem vou me aprofundar muito nesse assunto porque não sou psiquiatra...

No final, uma tirada que eu não sei se é ironia ou ingenuidade... Acho que a segunda opção é a certa: "ter fé em Deus é uma questão de pura inteligência". Obviamente ele se refere ao personagem bíblico. Mas, obviamente, se esquece de que a humanidade já inventou milhares de outros deuses e que esse deusinho hebraico YHVW é apenas um dentre todos eles. Ou seja, ter fé nesse deus que ele escolheu não é uma questão de inteligência, é uma questão geográfica. Se ele tivesse nascido na Índia, provavelmente estaria rezando para Shiva. Ou Ganesha. Ou Krishna. Ou todos eles.

A cereja do bolo fecal evangélico vem bem no final. Deve ser a milionésima vez que eu vejo um crente disparar a imbecil "aposta de Pascal". Além de ser uma aposta que privilegia uma única religião (existe UMA religião certa? Ou TODAS? Ou NENHUMA?), ainda lança uma falsa dicotomia ("céu e inferno"). Depois de tantas falácias, mais uma para finalizar, desta vez um ad baculum: "Pense nisso pois ainda dá tempo de fazer a escolha certa." Mas quem disse ao crente que ELE PRÓPRIO fez isso que ele chama de "escolha certa"? Algum crente diria que é a "voz de deus" e eu diria que já ouvi isso antes em algum filme ("i see dead people...").

O que mais choca é essa coisa de ficar urubuzando um ser humano que está passando por uma situação delicada em sua vida. E eu não deveria ficar chocado, pois já estive hospitalizado e já tive a chance de testemunhar crentes fanáticos entrando no quarto dos pacientes não para ajudar, mas para tentar empurrar abobrinhas bíblicas para pessoas que passam por situações nada fáceis. É um comportamento nem um pouco ético, mas é impossível fazer com que um fanático religioso entenda o quanto está sendo inconveniente. De minha parte, desejo melhoras ao jornalista Paulo Lopes.

Resposta ao Vídeo "Sobre 'Neo ateus' de Facebook" da Julia Jolie


"Quem que já viu alguém se converter por causa de alguma postagem no Facebook?"

Postagens ateístas no Facebook não precisam ter necessariamente essa intenção. Geralmente essas postagens são feitas mais para marcar posição.

"Eu, sinceramente, não entendo esse movimento de neoateus que tomou conta da internet"

Não tomou conta, é impressão sua. Se todos os segmentos estão hoje representados, é sinal da democracia da internet. E o termo "neoateu" já tomou ares de pejorativo, pois é muito usado por muitos fanáticos religiosos raivosos. É estranho que alguém que queira fazer uma crítica construtiva (como parece ser o caso da Julia) se utilize desse termo.

"Sério mesmo que vocês acham que xingando as pessoas, que sendo tão radicais quanto os próprios religiosos que vocês criticam e usando argumentos totalmente sem fundamento ou piadinhas vocês vão conseguir mudar alguma coisa no mundo?"

Radicais os ateus precisam ser. O contrário de radical é superficial. Radical, como a própria etimologia do termo diz, é quem vai às raízes, quem aborda algo profundamente. Talvez a Julia tenha querido usar o termo "extremista", mas eu nunca vi um ateu ameaçar de morte ou com o inferno alguém que não concorda com suas ideias. E a "treta" dos ateus não é com religiosos, mas com fundamentalistas. São esses que enchem o saco e atrapalham a democracia. A Julia não cita exatamente qual argumento ateísta é "sem fundamento", portanto, não dá para fazer uma réplica sobre isso. Com relação ao que ela chama de "piadinhas", isso não é feito com a intenção de "mudar alguma coisa no mundo". É apenas reflexo da natureza esdrúxula das doutrinas religiosas. Um dos melhores documentários dos últimos anos aborda justamente esse assunto. O humorista Bill Maher escancara o lado risível das doutrinas religiosas no excelente "Religulous - Religiões Ridículas". Vale a pena conferir esse documentário.

"Sério mesmo. Eu, sinceramente, acho que esse tipo de ataque às religiões chega até a fortalecer a crença de algumas pessoas"

A Julia se esqueceu de dizer que o contrário também é verdade: a postura ridícula, intransigente, intolerante, medieval, burra e extremista dos fundamentalistas fortalece cada vez mais a descrença de céticos, ateus e de alguns agnósticos. E até de muitos religiosos. Conheço religiosos que não gostam dessa corja de fanáticos que tentam impor as suas crenças como se fossem verdades. E o "objetivo" dos ateus, volto a repetir, não é o de "converter" ninguém, pois proselitismo é coisa de fanático religioso. Para um ateu pouco ou nada importa se alguém resolveu ser ateu ou continuar religiosa, pois nós respeitamos o direito individual de crença de cada um.

"Vocês criam uma espécie de inimigo contra as religiões e esperam que as pessoas magicamente passem a acreditar na Teoria do Big Bang."

Teoria do Big Bang nada tem a ver com ateísmo. É ciência pura. Inclusive, foi formulada por um padre. Há religiosos que a defendem ferrenhamente (inclusive fundamentalistas, basta pesquisar em vários fóruns antigos do Orkut). Ateus defendem a ciência e o método científico. E como o big bang é corroborado pelo método científico, não há por quê considerá-lo falso, caso contrário, não seria nem teoria.

"Vocês criticam a crença dos outros por eles não terem embasamento teórico para isso, mas, sinceramente, a maioria de vocês não estudou o suficiente para ter embasamento teórico para a Teoria do Big Bang também."

Não, Julia, a Teoria do Big Bang é a ÚNICA teoria que explica satisfatoriamente a expansão contínua do universo. E ela foi comprovada por algo chamado RED SHIFT. Só religiosos mais estúpidos fecham os olhos para as evidências. Religiosos mais esclarecidos e até alguns fundamentalistas aceitam tranquilamente a Teoria do Big Bang (e, mesmo que não aceitassem, não faria a menor diferença, pois não estamos mais na Idade Média e os cientistas não precisam mais do aval de religiosos para publicarem seus trabalhos). Quando você fala de "maioria", eu fico meio na dúvida, não sei de onde você tirou essas estatísticas...

"Eu, particularmente, sou ateia".

Que bom.

"Eu, sinceramente, não sei o que faria uma pessoa se converter, mas eu sei que isso não tá funcionando."

Sinto muito que você pense que postagens ateístas no Facebook são feitas para "converter" as pessoas...

"E eu acho que são, é uma coisa que tem quer ser, partir de dentro da pessoa"

É assim que acontece. É a consciência de que a religião é uma criação cultural humana, inútil e ridícula. Mas isso não impede que as pessoas que já conquistaram essa consciência não possam declarar isso sem medo. Estamos numa democracia, não?

"Muita gente é religiosa por causa de coisas que elas passaram na vida, por, pela forma como elas foram criadas e isso é muito difícil de você tirar delas."

Sim, entra nisso a lavagem cerebral, a evidência anedótica e o desamparo do ser humano diante do vazio da existência. Mas quem disse que TODOS os ateus se preocupam em "mudar" o pensamento desse tipo de gente?

"Aliás, a religião, na maioria dos casos, não interfere tanto assim em como ela se comporta ou como ela age, ou os valores morais dela."

Concordo.

"A maioria das pessoas só retira da bíblia o que convém para ela"

Nisso, a bíblia não difere de nenhum livro best seller de autoajuda.

"São poucos, são poucas as pessoas hoje em dia que vão seguir a bíblia ao pé da letra".

A essas, damos o nome de "fundamentalistas". Interpretam os fundamentos de seus "livros sagrados" literalmente, ao pé da letra. Esses são os chatos, os ameaçadores, os terroristas de cristo. Como você disse, são poucos, mas fazem um estrago muito grande. Por isso, devem ser desmascarados publicamente em suas falácias.

"Vocês ficam atacando certas partes da bíblia que não fazem mais sentido hoje em dia."

É justamente por isso que precisam ser atacadas, porque, por incrível que pareça, ainda existem fundamentalistas que enganam pessoas mais ingênuas dizendo que coisas absurdas como "o dia parado de Josué" são a mais pura verdade. A intenção não é nem de abrir os olhos dessas pessoas ingênuas, pois você mesmo afirmou que é muito difícil fazer uma pessoa assim despertar de seu sono dogmático, mas para desmascarar o cinismo dos fundamentalistas, que continuam insistindo com essa postura ridícula em afirmar que foi verdade que Jonas foi engolido por uma baleia (ou por um "peixe grande"). O nível de retardo mental de alguns crentes é tão enorme que eu já ouvi certa vez um crente dizer que se estivesse escrito na bíblia que foi Jonas quem engoliu a baleia, ele iria considerar verdade, só porque está na bíblia, veja só que absurdo.

"Os próprios religiosos já devem estar cansados de ouvir as incoerências da bíblia. Mas não é isso que faz eles acreditarem, não é isso que vai deixar de fazer eles acreditarem."

Não é essa a intenção. A luta contra o fanatismo religioso é como a luta contra as drogas. O fanático que já tem o cérebro cauterizado pelas doutrinas que segue nem vai prestar atenção em argumentos racionais. É como chegar em um viciado em cocaína e dizer: "Hei, pare de cheirar cocaína, isso vai detonar o seu cérebro!". É por isso que afirmei logo acima que a intenção das postagens ateístas no Facebook não é a de "converter" ninguém, pois concordamos que é perda de tempo. É claro que todos gostaríamos de viver em um mundo mais racional, sem fanatismo religioso, sem fundamentalistas, mas sabemos que isso é impossível. Portanto, apenas marcamos posição com nossas postagens não só no Facebook, mas na maioria dos veículos de comunicação que conseguirmos atingir.

"É uma coisa muito complexa, e não é com postagem no Facebook e xingando e chamando eles de imbecis e fazendo ataques à inteligência dessas pessoas que vocês vão conseguir fazer alguma diferença no mundo."

Isso me lembra da piada do cara que era efeminado e perguntou ao amigo: "Quando é que você vai parar de me chamar de viado?". E o amigo respondeu: "Ué, quando você parar de dar o...". Se algum crente der uma demonstração pública de imbecilidade eu vou chamá-lo de quê? De gênio? E lembrando que essa postura de atacar a pouca inteligência da outra parte não tem nenhuma intenção de "fazer alguma diferença no mundo", apenas demonstra que alguns ateus têm tolerância zero com pessoas que querem discutir sobre algo que não entendem.

"A gente tem que lutar por coisas que realmente façam sentido e que mudam o nosso dia a dia, que interferem na nossa vida e na nossa sociedade."

Uma das questões em pauta hoje em dia no Congresso é a luta contra a homofobia. Qual é o segmento que mais nutre ódio contra homossexuais? O dos evangélicos fundamentalistas, como o deputado Feliciano. E sabe por que eles odeiam os homossexuais? PORQUE ESTÁ NA BÍBLIA! Percebeu agora, como o fundamentalismo é algo escroto e que deve ser combatido? O fundamentalismo, ao contrário do que você deixa transparecer, interfere SIM na nossa sociedade e merece ser combatido e desmascarado em suas falácias.

"Na hora de compartilhar as barbaridades da bíblia, está todo mundo lá".

Claro. Quem é a favor de atrocidades?

"Mas na hora de assinar petição contra a invasão da religião no Estado laico... Cadê?"

Isso gera uma grande discussão. Qual é o valor prático de petições? E quem disse que a luta pela manutenção da laicidade do Estado não pode se dar através de outros meios, inclusive por meios virtuais?

"As pessoas deveriam se manifestar por coisas que fazem sentido".

Ateus se manifestam em favor da razão, contra a irracionalidade de crenças fundamentalistas.

"e lutar por um Estado laico e não agredir as pessoas e iniciar uma guerra contra a religião, isso não faz sentido."

Hipérbole da sua parte. Ninguém quer guerra contra religião. A luta pelo Estado laico passa necessariamente pela luta contra o fundamentalismo.

"Os ateus deveriam mostrar que o Estado laico é um direito e é um benefício para todos, para todas as religiões, não só para os ateus."

Sim, concordo, mas a teocracia velada do Brasil sufoca essa luta. Vide o episódio da tentativa de retirar aquela frase idiota das cédulas do real.

"Com essa guerra que vocês criaram, a imagem dos ateus, de uma forma geral, foi muito prejudicada".

Sempre esteve. Isso não é novidade. Não é por uma postura mais ou menos agressiva que isso iria mudar.

"E é difícil levar a sério pessoas que fazem parte de um grupo que deprecia outras pessoas."

Depreciação acontece de ambos os lados. O que você está dizendo pode ser aplicado PRINCIPALMENTE aos religiosos. Uma matéria do Yahoo que deu uma grande repercussão foi o slide "Eles não acreditam em deus". Na foto de Caetano Veloso, mais de dois mil comentários, sendo a maioria esmagadora de crentes. E o teor desses comentários, você reparou? As piores ofensas, e qual foi o "crime" que Caetano Veloso cometeu? Simples, ele só proferiu a frase "deus não existe". Só isso, nada mais. E essa mera frase desencadeou uma onda de fúria e irracionalidade por parte dessa corja de crentes raivosos e irracionais que sofrem dessa doença chamada fundamentalismo. Tem certeza que quer defender e "levar a sério" essa gentalha?

"Eu, sinceramente, gostaria de ver mais manifestações pacíficas e denúncias contra o Estado laico e menos estupidez e xingamentos e coisas do tipo. É isso."

Estupidez é especialidade dos fundamentalistas religiosos. Defesa do Estado laico é o que os ateus mais fazem.

Feliciano e as Suas Mentiras em Nome do Ódio


Feliciano começa as suas mentiras dizendo que é perseguido por um grupo. Mas não é justamente o deputado que vive escrevendo coisas no twitter contra determinados grupos? O que ele queria? Ficar escrevendo abobrinha e ficar sem respostas? É muito cinismo dele querer se colocar na posição de vítima agora. Depois ele faz uma acusação grave, sobre pedofilia. Ora, se ele tem tanta certeza de que ocorreu esse crime, por que ele não denunciou? E, se denunciou, a quantas anda esse processo? Ele não informou nada sobre isso, o que deixa um ar de dúvida sobre essa "denúncia". E, se ele sabe de uma coisa tão grave e não denuncia, ele também está sendo criminoso.

São mostradas cenas de manifestantes na CDH. Depois, o deputado diz que "a bandeira do PSC é a família". Mais uma mentira. Ele não defende a "instituição família", pois esta, como tudo na sociedade, também evolui. Hoje em dia, para que se esteja em consonância com os direitos humanos, é preciso defender TODOS os modelos de família. O deputado defende UM modelo de família, que, como bem escreveu o Robson, do blog Consciência, é o modelo cristão, heteronormativo, patriarcal e autoritário. Esse discursinho resvala na questão da intromissão da religião em assuntos que não lhe dizem respeito em um Estado laico.

Feliciano fala com menosprezo das manifestações, perguntando se havia "algum pai de família" no meio dos manifestantes. É o "brilhante" argumento que ele usa. Como se a ausência de "pais de família" invalidasse o protesto contra o péssimo parlamentar que ele é. Ele também se orgulha de ter, segundo ele, reunido vinte mil pessoas em uma palestra em Rondônia. É óbvio que ele atende à demanda de conservadores, que, infelizmente são a maioria no Brasil. Um tipo tosco, antidemocrático e fascista como Feliciano dificilmente prosperaria em um país desenvolvido, como a Suécia, por exemplo. Em um país miserável como o Brasil, onde a maioria das pessoas é formada por conservadores e analfabetos, tipos como Feliciano, Maluf, Renan Calheiros, Sarney, Collor e outros sempre irão prosperar.

Feliciano mostra as suas garras de mau caráter quando fala mal da classe artística brasileira. Ele tenta tomar cuidado para não generalizar, mas acaba generalizando, quando fala, no final, que não é "pautado" pela vida dos artistas, mas é pautado pela vida dos "trabalhadores" do Brasil. Ou seja, para esse escroto, artista não trabalha. Ele diz que foram "apenas cinco artistas" que protestaram contra ele, mas a classe artística em peso se declarou contra esse fanático religioso. Quando ele fala com menosprezo dos artistas, ele encarna tudo o que há de mais podre e retrógrado que já existiu no passado e só nos faz lamentar por viver em um país onde a maioria vive no esgoto da podridão intelectual e elege um tipo como esse para legislar em nome do povo.

O deputado fala de um suposto ataque de atentado ao pudor praticado por um grupo de degenerados. É um relato duvidoso. Veja bem que ele tem conhecimento de vários crimes, mas parece não denunciar nenhum. Depois, ele se faz de coitado (falácia de coitadismo, muito usada por fundamentalistas para se fazer de vítima e atacar seus detratores) e diz que a família dele está "sofrendo". Deveria ter pensado nisso antes de adotar uma postura fascista e intolerante. Mas o pior é que, ao "denunciar" o que os degenerados fizeram em vias públicas para provocá-lo, ele parece querer dar a entender que TODOS os militantes do movimento LGBT se comportam dessa maneira. É um absurdo como ele gosta de manipular e distorcer fatos...

Uma das falácias mais usadas por fanáticos religiosos em geral é a falácia ad populum. Ou seja, só porque a maioria da população defende uma determinada proposição não significa necessariamente que essa dada proposição esteja correta. Feliciano ataca com essa falácia ao afirmar que a maioria do povo brasileiro é contra o assim chamado "casamento gay". A bronca dos fanáticos é que esse assunto deveria ser resolvido pelo Congresso, mas isso é uma jogada mesquinha. Se ficasse a cargo do Congresso, isso NUNCA seria resolvido. Portanto, o STF, de maneira justa, decidiu uma pauta que o Congresso empurrava com a barriga e que, na maioria dos países de primeiro mundo já foi decidida, como nos Estados Unidos e na França.

Pergunta: "Pastor, eu gostaria de saber se o senhor concorda que quem segue a palavra de deus pode incentivar o ódio". Para "responder", ele comete falácia de inversão. Ele se faz de coitado, de perseguido, e diz que quem incentiva o ódio são as pessoas perseguidas pela irracionalidade do deputado. Outra pergunta: "Deputado Feliciano, eu gostaria de saber se o senhor respeita as opiniões que são diferentes das suas." Ele apenas cita a famosa frase de Voltaire sobre defender o direito ao contraditório. Terceira pergunta: "Pastor, o senhor já sofreu algum tipo de preconceito?". Ele aproveita para se fazer de vítima novamente e relata como já sofreu, já foi chamado de Capitão Caverna (para mim, seria um elogio, um dos meus personagens preferidos) etc.

Ratinho lê um twitt bisonho do deputado sobre "ditadura gay" e pergunta se existe mesmo essa ditadura. Feliciano responde que existe, baseado no fato de que há vários projetos que defendem a causa gay no Congresso. Mas não seria uma hipérbole por parte dele? Chamar de "ditadura" um movimento que não quer prejudicar ninguém, apenas garantir direitos individuais? Mas o pior vem em seguida. Ratinho cita o twitt em que Feliciano afirma que africanos descendem de ancestral amaldiçoado pelo personagem bíblico Noé. Além dessa historinha ser de uma imbecilidade sem tamanho que nem vale a pena ser discutida, é curioso saber quem é tão idiota a ponto de, em pleno século 21, fazer perguntas sobre a formação dos continentes a um teólogo ao invés de fazer essa pergunta a um geólogo...

Mais uma pergunta de uma pessoa nas ruas: "Senhor Feliciano, se o senhor tiver, um dia, um filho homossexual, qual será a sua reação?". Na resposta, Feliciano dá a entender que o lar no qual é formado um homossexual não é um lar sadio. Tamanha demonstração de preconceito não espanta vindo de um fundamentalista cheio de ódio, mas espanta saber que é alguém com esse perfil nojento que preside a comissão de DIREITOS HUMANOS. Como é de esperar, ele ataca o PL-122, algo que já virou lugar-comum entre fundamentalistas raivosos. Enfim, a questão desse projeto só diz respeito aos homossexuais. Mas, antes disso, ele se faz de vítima novamente e diz que a mídia distorce tudo o que ele fala e o coloca de "vilão". Eu é tenho pena da mídia, do tanto que ela apanha desse tipo de gente...

Ratinho lê uma mensagem de um telespectador de tendências nazistas que lança a expressão "heterofobia". O deputado, na maior cara de pau, concorda: "com certeza!". Restou perguntar ao deputado e ao nazista que fez a pergunta quantos grupos de gays que saem às ruas espancando e matando heterossexuais. Ele demoniza as pessoas que estão na luta verdadeira de direitos humanos e, novamente, se coloca na posição de vítima, dizendo que os ativistas estão lutando contra o "pensamento" dele. O pensamento dele é o seguinte: "A podridão dos sentimentos Dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, a rejeição." Um pensamento cheio de "amor", não é mesmo? Ele tenta contornar e dizer que essa declaração aconteceu devido à uma ameaça que ele sofreu, mas por que ele não apresentou o B.O. da ameaça às câmeras do SBT?

Em seguida, ele diz que a homossexualidade não é "normal". Claro, que não é, já que a "norma" estabelecida é a heterossexual. Mas também não é desvio, pois é natural, está na natureza, e não prejudica a terceiros. Depois, ele cita um caso de atentado ao pudor como se esse crime fosse exclusividade de gays. Ratinho coloca no ar vários twitts do deputado, um mais absurdo do que o outro. É absolutamente enojante o show de falácias do deputado que PENSA que representa a maioria. Triste pensar que o fundamentalismo religioso ganha cada vez mais espaço dentro do cenário político brasileiro...

Falácias de religiosos no Hora Brasil


O padre indaga: "O cérebro acaba, mas ele teve um começo. Então, de onde veio o cérebro, de onde veio os seus sentimentos, de onde veio a sua vida? Brotou do nada, caiu do céu de repente?". Não sei se o padre estava falando sério quando formulou esse "argumento", mas é risível, de tão infantil. Aqui ele usa a batida falácia de apelo à ignorância. Implicitamente ele quer dizer que quem fez o cérebro, os sentimentos, a vida, enfim, foi o personagem inverossímil defendido por ele.

Do outro lado, outro religioso completa: "É como dizer que teve uma explosão e aí tudo aconteceu". Outra afirmação extremamente tosca. Neste caso, estamos diante de um espantalho, pois o big bang não foi uma explosão. Típico caso de analfabetismo científico.

Os religiosos encerram com uma pérola: "quem acendeu o pavio [para a suposta explosão]?". Aqui, além de total ignorância científica, temos mais ad ignorantiam. Ou seja, mais do mesmo, nenhuma novidade. Total falta de argumentos racionais por parte dos religiosos.

Caricatura de um "Mundo Ateu" segundo a visão torta de um crente acéfalo


Em minhas prospecções pelo Youtube, encontrei um vídeo intitulado "Um Mundo Ateu". É um vídeo que apresenta uma caricatura do que seria, segundo a visão de um fundamentalista cristão, um mundo dominado por pessoas racionais, desprovidas de crenças em mitologias ancestrais. Como não poderia deixar de ser, o vídeo é um desfile de mentiras, distorções e falácias. Há predominância de imagens sombrias para ilustrar um texto eivado de preconceitos e "chutes". Não dá para levar a sério um vídeo que, na verdade, é um exercício ficcional que tem o intuito de levantar a bola do fundamentalismo religioso em detrimento de um mundo mais racional. Mas vale a pena conferir, nem que seja para ver onde chega o "talento" de alguns fundamentalistas de orientação cristã.

O vídeo é uma palhaçada. Começa com um exercício de imaginação que só pode passar pela cabeça podre de um fundamentalista quando expõe a seguinte frase: "Imagine um futuro distante onde o cristianismo foi esquecido e o mundo ignorou há muito a verdadeira moral que emana de Deus..." Ridículo. A "verdadeira moral" que emana desse deusinho podre referido pelo vídeo inclui apedrejar pessoas por adultério, matar sumariamente pessoas apóstatas, punição severa para pessoas que violem o "sábado sagrado" e outras barbaridades advindas de uma "moral absoluta". A verdadeira moral evolui junto com a sociedade. Na Idade Média, instituições religiosas consideravam moralmente correto matar pessoas na fogueira como punição para o que consideravam crimes. Hoje em dia, nenhuma instituição religiosa séria cogita em aplicar pena de morte a pessoas que desafiem seus dogmas. A moral humanista é infinitamente superior a essa "moral" assassina das doutrinas religiosas, principalmente da cristã.

Certamente uma pessoa civilizada e em sã consciência nem hesitaria em condenar a prática da escravidão. Mas, segundo a bíblia, é uma prática moralmente aceita. O personagem Jesus Cristo fez apologia da tortura de escravos na seguinte passagem: "Aquele servo (escravo) que sabia a vontade de seu senhor e não se preparou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites". (Lucas 12:47). Jesus NUNCA admoestou a prática da escravidão, utilizando-se da relação senhor-escravo em muitas de suas parábolas. Uma das coisas que realmente ajudou a acabar com a escravidão foi a filosofia humanista que influenciou os ideais da revolução francesa, incorporando bandeiras como a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A verdadeira moral evoluiu através de discussões racionais baseadas na empatia (um sentimento que é uma conquista da civilização) e na filosofia de orientação humanista e secular. Se dependêssemos da "moral religiosa" provavelmente ainda estaríamos na Idade das Trevas.

Em seguida, o texto idiota do vídeo tenta rebaixar a visão de mundo desprovida de crenças em divindades à condição da imbecilidade da fé. É óbvio que a fé é algo obsoleto para a ciência, onde o que importa são as evidências, mas um fundamentalista não possui inteligência ou honestidade intelectual para entender isso. Há um excelente texto de Richard Dawkins intitulado "A Ciência é uma Religião?" que joga luz sobre esse assunto. Para completar a caricatura, o crente que fez o vídeo ainda coloca a imagem de uma paisagem na penumbra, uma imagem sombria, que transmite a ideia de que pessoas desprovidas de fé em seres improváveis vivem "nas trevas". É exatamente isso que transmite o subtexto dessa passagem desse vídeo. Nessa mesma passagem, o texto afirma que o deus bíblico é apenas uma "lembrança de um outro tempo perdido na história". Apenas um exercício bobo de futurologia crental, sem mais o que acrescentar em termos de argumentos. Apenas bobagens de crente fundamentalista.

Na imagem seguinte, o crente define esse possível futuro como sendo "o império da razão" e o mostra como sendo um local escuro sob uma lua cheia. Isso diz muito sobre o pensamento de um fundamentalista. É uma inversão. Para um fundamentalista mais ferrenho, a razão realmente representa as trevas e a fé representa a luz. É justamente o contrário. O período histórico no qual a humanidade foi guiada pela fé ficou conhecido como Idade das Trevas, que só acabou quando a razão passou a ditar as regras, com o Iluminismo. Há um predomínio de imagens sombrias no vídeo para passar a ideia de que um futuro "mundo ateu" seria um "mundo escuro". Mais adiante, o texto continua insistindo na mentira de que existe uma "moral objetiva" e, o pior, seria advinda de um ser fictício. Como já demonstrei nos parágrafos anteriores, isso é uma mentira. A moral é construída através de valores seculares que também evoluem com a sociedade. Na verdade, a religião sequestrou a moral, tentando espalhar a mentira de que é uma exclusividade sua.

O texto toca no assunto do relativismo moral ao dizer que alguns "sentimentos que outrora eram vistos como inferiores e evitados, agora são aceitos em muitas situações e isso passa a ser visto de forma natural." Mais um show de mentiras. Aqui, talvez, o crente tenha querido se referir à homossexualidade, que em sociedades atrasadas era considerado crime e punido até mesmo com a morte, e hoje já é bastante tolerada. Mas o desavisado se esquece de que os próprios chefes do cristianismo tiveram que rever a sua posição diante da escravidão, mesmo com o "livro sagrado" apoiando-a. Isso prova que os cristãos também seguem um certo relativismo moral, caso contrário teriam que aceitar a escravidão como algo "normal", pois está lá, na bíblia, apoiada por figuras como Jesus e Paulo. E outra: muitos analfabetos funcionais confundem "natural" com "normal". Natural é o que está na natureza. Não é o homem que determina o que é "natural". Normal é o que é estabelecido como norma através de determinações prévias de determinada sociedade.

Mais adiante, o texto faz um espantalho sobre a seleção natural, o que não é de se admirar em se tratando de um texto escrito por um fundamentalista. Com criatividade de ficcionista distópico, o autor do texto molda uma sociedade futura ateísta com uma legislação baseada na seleção natural, uma caricatura bem exagerada. Parece ser um exercício infrutífero pensar em uma sociedade ateia sob a perspectiva de um fundamentalista. Hoje em dia temos sociedades cuja maioria da população é desprovida de crenças em divindades. A Suécia, por exemplo. Um país de primeiro mundo com mais de 80% da população que não está se importando muito com inutilidades como a fé religiosa. E daqui surge uma discussão interessante, pois os fanáticos costumam dizer que a Suécia tem altos índices de suicídio, mas se esquecem de dizer que o Brasil, com quase 95% da população formada por religiosos (a maioria, pessoas cristãs) possui altíssimos índices de criminalidade, com altas taxas de homicídio, latrocínio e outros.

A caricatura prossegue, dizendo que o homem desprovido de crenças em divindades vive com felicidade, mas a imagem que aparece é a de um palhaço chorando. Logo depois disso, o vídeo idiota termina de uma forma igualmente idiota, evocando a doutrina irracional do sacrifício, uma doutrina imbecil cultivada por povos primitivos, violentos e selvagens. Povos primitivos pensavam que derramando sangue, poderiam aplacar a ira dos deuses. O deus dos hebreus, então, teria mandado seu filho para morrer e apagar um erro imbecil que ele próprio teria cometido. Ou seja, nada inteligente para um deus perfeito. Mas essa é uma questão doutrinária interna dessa religião, muita gente considera plausível e nem vale a pena se estender nisso. Mas colocar uma doutrina estúpida como essa de "morte para salvar a humanidade" para fazer contraponto com uma sociedade racional é meio fora de propósito. Mas normal para um fundamentalista, tipo de gente que não prima muito pela inteligência.

O Papa Francisco e o Anacronismo da Igreja Católica


Eu não sei se a Igreja Católica tem que se modernizar, porque esse é um problema exclusivamente da instituição e daqueles que seguem a Igreja Católica e que ficam sempre com essa dúvida, se ela deve se modernizar ou não. O anacronismo da presença do Papa tem várias dimensões, e nós estamos vendo isso todos os dias. Por exemplo, o Papa fez uma pregação em que conclamou os jovens a se engajarem numa luta contra a corrupção (o que é muito correto, diga-se de passagem). Ele também tem um discurso de valorização da velhice, da infância, da juventude, da inclusão dos pobres etc. Mas, em momento algum ele incentivou os jovens católicos a vigiarem a própria Igreja Católica em seu atos de corrupção. A Igreja Católica está atravessada de corrupção, todo mundo sabe.

Em momento algum o Papa Francisco disse aos jovens da JMJ para ajudarem o Papa a combater a corrupção que emana da própria igreja. Em momento algum ele disse aos jovens para ficarem alertas em relação aos maus tratos da igreja com relação às crianças. Os casos de abuso sexual de padres contra crianças são notórios e conhecidos por todos. Ele tem que se manifestar SEMPRE contra isso e não apenas quando toma posse do cargo. Ele não pode simplesmente chegar em um país e se dirigir a multidões como se não estivesse acontecendo nada de grave nos bastidores da Igreja Católica. Ele tem por obrigação se dirigir a esses jovens e pedir que os mesmos ajudem a vigiar e combater as mazelas internas da própria Igreja Católica, vigiar a própria hierarquia da igreja nesse sentido.

O discurso do Papa Francisco é populista porque tenta ignorar toda a dimensão complexa e contraditória da própria instituição da Igreja Católica. Quando Bergoglio assumiu o Papado, ele até se comprometeu em combater a corrupção e os escândalos sexuais da igreja, mas o que ele não fez (e perdeu a chance de fazer durante a JMJ no Rio de Janeiro) foi conclamar a juventude católica a vigiar e combater esses males. Ele quer tratar esses problemas como sempre se tratou na igreja, como assunto que deve ser tratado internamente, sem uma partilha de responsabilidades com a própria comunidade eclesial. Talvez ele não tenha feito isso porque essas máculas ferem a imagem da igreja e mostram que essa instituição não é assim tão diferente de outras instituições humanas.

Todos esses problemas enfrentados pelo atual Papa (problemas que supostamente levaram o anterior a renunciar) mostram não apenas que a Igreja Católica é uma instituição falível, humana, que não tem absolutamente NADA de transcendente, mas também que, por ser MUITO hermética, muito fechada, os problemas internos podem ser até mais graves do que os de outras instituições humanas. Esse hermetismo da ordem eclesial mostra-se também como uma das faces que revela o gritante anacronismo dessa instituição medieval. Uma coisa é preservar os dogmas, que, por definição, são imutáveis. Outra coisa é tentar conciliar um discurso que tenta ser progressista com a manutenção desses mesmos dogmas ancestrais. Esse, talvez, seja o maior desafio que esse Papa possa enfrentar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A Questão dos Médicos Estrangeiros no Brasil



A reclamação dos médicos com relação aos vetos da presidente Dilma ao Ato Médico não é simplesmente uma questão corporativista, mas há aí também um interesse de mercado. O governo errou em não ouvir mais a Federação Nacional dos Médicos, mas não apenas essa entidade. Quando você permite que a situação se estruture de um modo que tenha o Estado de um lado e essas entidades de outro, a coisa fica complicada. Essas entidades estão por aí há muito tempo e a representatividade das mesmas, muitas vezes, é discutível. Nesse cenário, a situação para impasses é muito clara quando o governo pretende realmente estabelecer mudanças, porque qualquer mudança vinda de cima para baixo mexe em situações acomodadas. E essas entidades, por definição, são representantes de situações acomodadas.

O governo quer uma transformação, quer uma mudança, e ele não pôs em prática o método mais razoável, que seria o de ouvir, mas não o de ouvir essas entidades em si, não apenas elas. A questão de trazer os médicos estrangeiros para trabalharem no Brasil acarreta problemas que ainda não estão sendo abordados. O problema principal, no qual até podem ser notados traços de corporativismo, é que trazer médicos de fora significa aumentar a ideia de que a medicina é quem governa a relação médico-paciente porque a barreira da língua vai transformar essa relação em uma relação ainda mais muda por parte do paciente. A anamnese, que é aquele momento em que o médico ouve o paciente, que tem o repertório da história do seu corpo, do seu sofrimento, das suas dores, da memória da sua trajetória clínica, vai ficar comprometida em nome de uma "ciência" que se aplica indistintamente sobre todo mundo que está doente, padecendo de uma doença específica. Não é assim.

Nós sabemos que a doença aterrissa no indivíduo, ela "nasce" no indivíduo, ele tem uma história. E ninguém fala disso. Ninguém está valorizando a discrepância que vai haver entre o exercício da ciência médica e o paciente como porta-voz de sua própria dor.